Amor, ética e poder paralelo

Essa semana ouvi um pequeno trecho de conversa entre Leandro Karnal e a Maria Homem. Me mobilizou tanto internamente que precisei parar e escrever, unindo outras reflexões que já me acompanhavam há dias.

Segundo a Maria Homem, para saber que se ama alguém a resposta é não se questionar sobre, se não “aí você já está na equação utilitária sobre as relações e pactos sociais”. Essa afirmação é muito perigosa, em várias camadas. A primeira é a mais óbvia, pois sabemos que muitas vítimas de abusadores amam seus abusadores, e por amar acabam nunca questionando o risco que correm na manutenção dessa relação, amar não tem a ver com avaliar os riscos reais que corremos por amor. Na perspcetiva da narrativa da Maria Homem o amor precisa cegar, ou aguentar calada até em pensamento o cotidiano. Esta é uma camada extremamente delicada, e a outra é que desdobrando isso para o campo social, temos atrocidades humanas por amor a ditadores, a ideais, a crenças, a líderes religiosos, e tantas situações que essa abordagem da Maria Homem aplicada seria fatal, sendo o questionamento a negação do amor, entraríamos em um amor servil e subordinado ao ser amado. Na Comunicação Não-violenta os conflitos nas relações são sinais de saúde, uma vez que seres humanos estão em constante mudança individual e social, é preciso reavaliar acordos para que todos possam ser ouvidos em suas necessidades, e isto não tem a ver com amar, mas com o estar no mundo e em relação.

É muito fácil encaixarmos as peças geradas pelo intelecto humano em lugares que não pertencem, e celebrarmos que o quebra cabeças está completo, mas quando olhamos a imagem, nada tem a ver com realismo, e parece muitas vezes obra do Picasso. Toda vez que leio ou ouço um Filósofo trazendo uma “verdade”, o primeiro pensamento que me ocorre é que não se trata de Filosofia, e sim de uma pseudociência, sempre muito precisa chamada “achismo”. Uma ética filosófica consiste em uma narrativa cuidadosa, mesmo que discordante de outras teorias, porém não generalista, fechada em frases que flutuam no imaginário como dejetos em um canal que deságua em um rio. É preciso nutrir o rio. O rio é feito de gente, que sustenta instituições, e governos. Amar é cuidar, e cuidar consiste em fazer juízo das ações, para não alimentarmos a violência gerada pela omissão e negligência.

E assim termino esse texto com uma pergunta à você querido leitor: o que amor e ética tem a ver com crime organizado e poder paralelo?





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